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Maternidade: uma oportunidade de refazer-se

Fiquei um tanto confusa com o tema da blogagem desse mês e foi numa conversa agradável que tive com a Tê que as ideias e pensamentos foram se aclarando para que eu pudesse participar! Obrigada Tê!

Minha infância não teve muitas fotografias, afinal há quase 50 anos atrás, era difícil, caro, um verdadeiro luxo fotografar.
Mamãe tinha esse luxo e mesmo com todas as dificuldades da época, ela fez-me um bonito álbum.

Trago aqui para o blog, uma página que eu fiz a partir de fotos antigas e também as fotografias tiradas por meus pais.





Eu fui uma criança muito desejada, imensamente desejada, querida e acolhida.

José Augusto e Diva me adotaram logo que nasci.


Esses chinelos de mamãe eram ameaçadores quando eu não queria comer!



Como gostavam de me vestir bonita e sempre aos domingos passear!



Olhem bem para essa festa de aniversário: o bolo foi feito por mamãe e a decoração toda feita pelo meu pai. Tudo ali se movimentava: o carrossel, a roda gigante. E tudo ( motores ) foi feito a partir de sucatas. Vinha gente de longe ver as festas que meus pais ofereciam!


Tive os melhores brinquedos.


Não aprendi, mas adorava ouvir papai tocar!


Meu pai era barbeiro e mamãe dona de casa. Financeiramente não tínhamos uma vida abastada, mas eu tive muito conforto e muito amor. Nunca apanhei, só ameaças mesmo. Cada um a seu modo, eram dóceis.

Então, o que posso da minha infância?

Que eu fui extremamente triste e infeliz.

Não, você não leu errado: com toda essa doçura, esmero, amor eu fui muito infeliz e meus pais nunca souberam, nunca desconfiaram.

Papai era mais velho que minha mãe 27 anos. Um homem nascido em 1915, com a aparência envelhecida ( hoje em dia é bem diferente ). Foi em algum momento entre os meus cinco e seis anos que a consciência da morte me tomou. Eu olhava para meu pai e via a morte o levando.

Assim que me davam o beijo de boa noite e eu fingia estar muito sonolenta, saíam do quarto e eu começava a chorar, um desespero que apertava-me, uma angústia que não podia ser descoberta. Eu via tanto sofrimento neles que não queria causar nenhum incômodo. Muitas vezes dormia soluçando. Eles nunca descobriram meu drama.

Eu comemorava o aniversário de papai com aquela tristeza precisando ser disfarçada e então, minhas certezas foram levadas pela vida quando minha mãe morreu. Entes dele. Ela tão mais jovem.

Quis contar essa história porque todos nós temos ou tivemos nossos pequenos ou grandes dramas. Uma vida tão linda que eu tive e eu mesma escolhi o olhar mais duro para ela. Vejam como isso é curioso - nunca sofri maus tratos, violências, negligências e fui infeliz.

A cura foi aconteceu: foi aos poucos, foi um processo, foi juntando pedacinhos do que as pessoas me ofereciam.

Um momento inicial em que eu comecei a lavar meu coração da tristeza foi quando entrei na casa de uma amiga pela primeira vez. Já tínhamos uma amizade sólida, eu sabia que ela sofrera violência física de seu pai que surrava os filhos. E então quando eu chego na casa dela, havia um pequeno altar ( asiática minha amiga ) e eu fiquei pasma quando vi a fotografia do pai dela ali, ao lado da mãe, com lindas e frescas flores.

Como aquela incoerência?

Então ela me falou da reverência dos orientais pelos pais. Há uma imensa gratidão, ela me disse.
Agradecem porque reconhecem na possibilidade dessa configuração - pai e mãe - um milagre, a preciosa oportunidade do nosso nascimento.

Não é preciso conviver, sentar à mesa do Natal juntos. Mas é preciso ter gratidão, mesmo que seu pai tenha sido um traste, ela me disse rindo. Só estou aqui por causa desse encontro dele e minha mãe.

Quando eu a questionei sobre os maus tratos ela disse que era mesmo horrível, mas completou com muita serenidade "eles não sabiam fazer diferente".

Fui tocada por tudo aquilo. Aprendi o verdadeiro sentido do mandamento "honrar pai e mãe". Passei a agradecer meus pais, mesmo já não os tendo comigo e aquilo foi me curando, trazendo alegria para meu coração.

Influências na minha maternidade? Sim! Todo o carinho e amor que recebi deles, a coragem de um homem velho adotar um bebê me encanta, saber que a vida pode nos surpreender e mesmo assim as coisas ficam bem.

Essas experiências me fazem cuidar de meus filhos sempre incentivando a autonomia e independência; cedo trouxemos o assunto da morte para nossas conversas e também os giros que a vida nos proporciona e alguns podem não ser agradáveis. Mas temos que lidar com eles. Esbravejar com a vida não vai resolver.

Não trago bloqueios, traumas. A gente pode aprender, pode mudar, trazer novos significados.
Gosto desse não-saber que permeia minha vida. Genética do pai? Da mãe? Não sei! E isso me dá liberdade para aprimorar virtudes, qualidades e não ficar presa, ser vítima de qualquer coisa.

Certamente trago marcas em mim de todos eles, as genéticas, as de convivência, de culturas, as boas, as ruins também.

Possa sempre o sofrimento nos ensinar, se tivermos que passar por ele e nos transformar.

Para finalizar ( ufa! me empolguei com esse tema! ), quero trazer dois momentos que aconteceram essa semana conosco.

Minha filha chegou em casa dizendo que o almoço dela no shopping foi um horror. Ela e a amiga passaram um sufoco. Pediram comida japonesa e veio um hashi para comer e elas não sabiam comer de palitinho. "Mãe se fosse com você eu sei que a gente ia dar muita risada, mas sem você eu fiquei muito nervosa com aquela situação e nem fui perguntar se tinha talher".

Minha filha me define como uma mãe que ri e isso é tão bom!

Meu filho me abraçou demorado e disse: você tem tanta paz dentro que a gente sente no teu abraço.

Ah! Até chorei sabe. Mas de alegria! Poder transmitir paz também é tão bom!

Obrigada meninas por mais esta oportunidade!
Logo visito os blogues que estão participando!


Blogagem coletiva organizada pela Cris Philene do Prosa de Mãe






Comentários

  1. Ana Paula, já sabia de pedaços de tua história de vida, pois nos acompanhamos há séculos,rs... Coisa boa! E que doce ver essas fotos, os aprendizados que carregas da infância . Sei também das perdas e essa da tua mãe tão cedo, deve ter sido dolorida demais! Emocionas sempre...

    E que bom que teus filhos tem uma mãe com tu...Quando eles percebem que temos coisas boas que fazem falta na vida deles... ADOREI! Sempre assim aqui, venho e já sei que tem coisas legais me esperando1 beijos, tudo de bom,chica

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  2. Bom dia, Ana Paula!

    Perdão e gratidão são sempre formas de nos tratar primeiro com hospitalidade. Nos damos o melhor descanso e companhia quando assim os praticamos. Por conseguinte, somos levados ao verdadeiro amor e, num centro de amabilidade contagiante envolvemos os filhos e deles recebemos a recompensa, reconhecimento e como faz bem receber esse retorno em forma de elogios!

    Áurea, a sua participação!!!

    Beijo!

    Renata e Laura

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  3. Ana, que lindas recordações.
    Depois de quase 40 anos de idade, EU entendi que cada pessoa só pode dar aquilo que tem, e muitas vezes trás uma bagagem pesada, difícil de se desfazer, por isso desde a minha maternidade venho me refazendo no Amor.
    Apesar de ter tido uma parte difícil na minha infância, não gosto de dar detalhes, porque assim como sua amiga, compreendi que precisamos mesmo honrar pai e mãe, perdoar, para se liberar das amarras...
    A maturidade vai trazendo a luz, e vamos compreendo melhor as situações do passado, e o que é bom a gente replica e o que não é a gente se refaz...
    Sou muito parecida com você, pequeno gestos de felicidade na família, é um pote cheio de ouro, transborda a gente de alegria!!!
    Estou me refazendo dia após dia, sou uma metamorfose ambulante...rs
    Beijos doces,
    Ju.

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  4. Oi, antes de tudo, desculpas pela demora. Ontem que havia falado que estava na rua, cheguei em casa exausta. Muito cansada e gosto de ler com atenção. Não seria possivel.
    outra coisa é que foi um prazer poder conversar com você previamente...

    Quantas etapas vemos aqui... com esse texto enriquecedor que nos chama à verdade, passam outras lembranças por aqui e outras pessoas...

    Sua adoção com pessoas boníssimas, justas... Sua tristeza por não ter conseguido de alguma forma, absorver completamente todo esse amor...

    Seu reconhecimento, e creio, na hora certa (que é a hora que tem que ser), com sua amiga asiática.

    A gente aprende tanto com todos... por isso é importante essa blogagem, para colhermos os frutos das palavras, vivências e sentimentos...

    Vi amor de cima a baixo aqui com essas imagens.... Que aniversário lindo, cheio de empenho, carinho, participação, boa vontade e muito, muito amor à filha!

    "eles não sabiam fazer diferente" que sabedoria! Vou carregar sempre também...

    Obrigada mais uma vez pela participação e por nos apresentar tão linda história!
    Feliz que tenha clareado tudo e conseguido passar essa riqueza!

    Ahhhh e o diálogo com seus filhos, reforça em nós, mães, a certeza de que amar com todas as forças, e "do jeito que sabemos" é o melhor caminho...

    Beijos doces... É sempre uma alegria tê-la conosco.

    Tê e Maria ♥

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  5. Querida Ana, que post encantador.
    Um resgate a sua vivência e que fotos lindas! Aqui tb tenho pouquíssimas fotos... não havia a facilidade dos dias de hj, talvez até por isso que .muitos pais eram mais ríspido como os da sua amiga.
    Coisa linda saber da sua história, do amor dos seus pais e apego seu a eles...
    Talvez a tristeza era por ter receio de perde-los e não saber o que aconteceria... mas, graças a Deus vc recomeçou, curou o que te afligia e renasceu.
    Como me identifiquei com sua fala se que eles não sabiam fazer diferente, a mais pura verdade, eles não sabiam mesmo, e creio que por isso que nós apesar de sentir, seguimos enfrente nos refazendo.
    Amei sua participação.
    Bjs, Cris

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  6. Ana que texto mais lindo, que história forte e bonita vc traz para nós, uma infância simples , marcante que te fez guerreira de hoje, que Deus abençoe muito vc e sua família, sua história é exemplo de vida para todos nós.
    Vim conhecer seu blog , meu blog fez aniversario de 10 anos ontem passe lá para nós visitar, bom fim de semana, bjs

    https://patriciacharleaux.blogspot.com/

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  7. Oi Paula, muto emocionante sua postagem e depoimentos nesta série.
    Mas o bom de tudo é saber que fez a travessia sem traumas e assim pode criar seus filhos com seus pensamentos e ações. também tive pais no ano de 1918 e meu pai foi com 67 e mãe com 85, eram dos mesmo ano um de março e pai de Setembro. No meu caso aprendi muito pela vida e naquela época os pais não tinham muito de dialogo com os filhos, davam os conselhos e exigiam o cumprimento e o não eram corrigidos seriamente. Um velho tempo amiga mas que também por isso mesmo, crescemos mais cedo e ficamos responsáveis mais cedo. Enfim li atentamente seu depoimento e entendo bem sua inspiração em partilhar. Achei lindas as fotos pois eram raras principalmente no interior de Minas onde nasci, queria ter fotos de uma infância que fui feliz, muito feliz mesmo diante uma infinita dificuldade material.
    Uma boa semana para vocês.
    Lindas as declarações dos filhos no final de sua postagem e cômico o lance da filha no restaurante japonês,kkk
    Beijo amiga.

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