Pular para o conteúdo principal

As dores e as delícias da maternidade

Desculpem o trocadilho, mas que delícia é escrever sobre as delícias da maternidade!
O milagre e o mistério de carregar dentro de si, seja no útero ou no coração, um serzinho que logo estará em nossos braços e se tivermos abertura suficiente podemos nos encantar com cada simples sorriso, cada conquista.



Dois momentos trazidos dos nossos álbuns de fotografias que são puro deleite!

Porém, nessa blogagem eu escolhi focar não nas delícias, mas nas dores e sofrimentos.

Não é confortável, nem tampouco agradável falar de sofrimento, de dor. Tentamos ao máximo evitar os sofrimentos; ninguém acorda desejando ter um dia bem difícil, cheio de percalços.
O tempo todo almejamos a felicidade.

"A arte de viver feliz também é a arte de transformar nossas aflições. Se queremos ser felizes, devemos identificar o que nos impede de sermos felizes. O ato de encarar nosso sofrimento pode nos indicar uma saída, um caminho em direção ao bem-estar". *

Vamos falar um pouco de emoções aflitivas?

Colocarei um frase em maiúsculas para identificar que ela foi pronunciada aos berros:

- EU TENHO INVEJA DOS MEUS AMIGOS, EU SINTO MUITA INVEJA DELES, EU QUERIA TER UM CELULAR IGUAL AO DELES.

Tenho uma imagem de quem proferiu, despejou, esse berro em cima de mim.


Olhem bem: não é a coisa mais fofa do mundo esse bebê?

Pois foi essa fofura que me berrou a inveja. Bernardo devia ter uns nove anos de idade quando o fez.

Não tive problemas com birras e com enfrentamentos quando ele era menor. Meu filho era elogiado por onde passava: simpático, inteligente, prestativo...

Quando eu me deparei com aquele berro dele, fiquei paralisada.

Era como se eu não reconhecesse, não acreditasse que meu filho tão fofo estava me dizendo sentir algo tão horrível. E veio junto a decepção - sim, eu estava decepcionada com meu filho.

Para situá-los, leitores queridos, meu filho havia mudado de escola e lá a maioria de seus amigos tinham um celular da marca da maçã. Eu achava completamente desnecessário que ele tivesse um celular, mas ocorreu que marido havia fechado um novo plano de telefonia móvel e ganhara um aparelho bem simples, mas era um celular e decidimos que o daríamos para nosso filho. Algumas semanas depois o berro da ingratidão.

Diante daquela situação, eu sentia que não poderia ficar muito mais tempo paralisada, eu tinha que ter uma reação e não serviria simplesmente dizer que é feio sentir inveja.

Respirei fundo e tudo o que a minha bagagem, minhas experiências puderam falar era sobre as influências que as marcas causavam em nós, como a publicidade agia para nos persuadir, a função de um celular - o dele fazia as mesmas coisas que o dos amigos, apenas não tinha o glamour de uma marca. Como tinha recente assistido a algum documentário sobre o lixo eletrônico, o assunto também se encaixou na conversa. Falei também do risco da inveja nos levar para caminhos terríveis, como o roubo, o crime. O efeito de tudo isso foi positivo. O menino foi reconhecendo e elaborando todo o conteúdo do nosso diálogo.

Esse susto foi ótimo para mim, porque a partir dali eu fui buscar, estou sempre me debruçando em questionar, aprender mais sobre emoções difíceis e não fugir delas.

Raiva, inveja, ódio, mesquinhez... é importante ressaltar que nós não somos nossas emoções negativas, nossos filhos não são invejosos, egoístas. Somos muito maior que tudo isso, mas podemos, eventualmente, manifestar uma ou outra emoção intensa.

E olhar para uma emoção forte é exatamente tirar a sua força e abrir caminho para que algo grandioso surja.

Recentemente, ano passado para ser mais precisa, minha filha veio com uma fala semelhante, não gritou, mas disse:

- Eu tenho muita inveja da minha amiga. Os cadernos dela são perfeitos, todos os professores elogiam a letra dela.

Não me paralisei e nem me surpreendi. Agora eu já tinha mais elementos para iniciar uma conversa!

Disse que se era amiga dela, ela poderia se alegrar com essa qualidade da amiga, enxergar o que cada um tem de especial.

Outra coisa que eu aprendi a respeito da inveja é que podemos transformá-la, assim como qualquer emoção negativa, em algo bom.
E a inveja pode ser combustível para nos inspirar a fazer também. Por que ela, minha filha, não se inspirava na amiga e melhorava sua letra?






Esse é o resultado! Ela transformou a inveja em motivação para melhorar, trocou muitas dicas com a amiga que se prontificou a ajudá-la e aprendeu uma bonita lição de amizade além de, ficar com a letra bem mais bonita!

É muito mais fácil a gente justificar várias coisas como sendo da idade, da fase de desenvolvimento, o "isso passa" porque muitas vezes é desconfortável enxergar que nosso filho está sentindo algo "feio" e dá trabalho olhar para o que surge e se dispor a ajudar a melhorar.

Na semana que passou tivemos acontecimentos terríveis em nosso país, com crianças/adolescentes numa escola, que junto com a imensa tristeza nos faz refletir sobre o olhar, o estar presente com nossos filhos e ouví-los, dar abertura para que expressem o que sentem. Não é feio sentir raiva. Raiva existe e pode se manifestar em nós. O que vamos fazer se ela surgir? O que é possível?

Olhar para as emoções difíceis que surgem em nós, especialmente em nossos filhos e poder ajudá-los a transformar e elaborar de maneira que possam novamente sentir felicidade é uma das delícias da maternidade!

Participe, interaja também!


Ah! Já ia me esquecendo!
Quando eu estava preparando esse texto para a blogagem , surgiu-me uma outra inspiração e um outro texto, o qual convido-os a ler. Só clicar aqui!


*Thich Nhat Hanh




Comentários

  1. Ana, bom dia minha querida. Não sei porque mas me deu o tempo todo vontade de chorar lendo seu texto. E claro.. estou chorando. Talvez porque hoje tendo uma filha de 12 anos e ela não tendo um celular pra levar pra aula e fazendo letras bonitas e caprichadas em seu caderno, me identifiquei. Por isso a gente tem mesmo que se relacionar com pessoas, com mães que mostram o universo bem parecido com o da gente.
    Sim, é a fase, mas também aqui acreditamos que essa fase pode ser melhor e não somente ser "a fase" , São irritados, tem vontades de ter isso ou aquilo, estouram a toa, sim, é "a fase" mas podem passar muito melhor por ela.
    E aí entra mesmo nossas milhões de reflexões todos os dias. A adolescência nos faz trabalhar as emoções muito mais que a infância. É um trabalho árduo rs

    Aqui também sempre ha muito, muito diálogo. Graças a Deus né amiga?

    Muito obrigada por essa linda participação. Adoro aprender por aqui.

    Um beijo doce e feliz quarta feira!

    Tê e Maria ♥

    (levando seu link)

    ResponderExcluir
  2. Ana, como sempre ,foste perfeita. trouxeste fotos lindas e casos elucidativos bem sérios e que tu, com teu olhar e sabedoria, tão bem soubeste driblar. Muito bem! E ainda bem, acho válido que coloquem os sentimentos pra fora e por vezes apenas nós podemos ouvir... Uma tarefa que não é fácil, mas é uma delicia saber passar por todas as fases e sobreviver, rs... beijos pra todos vocês. Lindo OUTONO! chica

    ResponderExcluir
  3. Ai amiga... quanto aprendizado!! E esse serzinho que gritou o desejo pelo celular que te paralisou... que carinha fofa.... acho que justamente por isso que paralisamos diante de uma birra ou malcriação dos nossos filhos... A gente cuida, zela, educa e ainda assim percebe falhas... porque todos nós somos falhos!
    Mas, como foi importante o aprendizado. Como foi transformador pra vida!
    E que lição linda vc deu a sua menina quando percebeu novamente uma situação de querer ter o que o outro tem...
    Acredito que estamos aqui pra sempre somar e aprender uma com as outras e saio daqui do seu post, com mais um aprendizado.
    Obrigada por sempre participar conosco, bjs
    Cris

    ResponderExcluir
  4. Oi Ana, que relato inspirador, que linda que você é.
    A gente se fortalece nas dores, nas dificuldades, e quando partilhadas assim ajudam a nortear outras mães e famílias que passam pela mesma situação...
    Bem dito é isso mesmo que você falou.... "o que vamos fazer com os problemas e dificuldades quando surgem, essa é a principal referência e diferença que fará na vida dos filhos"...
    Não adianta somente pautar e mandar esquecer as dificuldades, devemos enfrentar juntos e como vc bem disse, podemos nos inspirar e nos motivar a sermos melhores, quem sabe não é, dependendo da situação...
    Aninha, agora falando de delícias, que fotos encantadoras são essas minha linda....
    Amei!!!!!
    Que as delícias permaneçam e as dore nos fortaleçam, não é mesmo Ana...
    Beijos doces,
    Ju

    ResponderExcluir
  5. Boa noite Ana!
    A experiencia nesta vida é tudo e você belamente e inteligentemente faz um depoimento, que mostra todas estas maravilhas da vida, para saber como agir e reagir diante certos momentos desta arte de educar um filho. Os dois exemplos aqui expostos mostram o quanto temos que nos cercar das massificações e assim proteger os nossos desta máquina destruidora de seres humanos. Um sentimento deplorável a inveja que deve ser combatida e analisada seriamente em qualquer ser, pois dela vem outros sentimentos mais perversos, como fala a Biblia da relação Caim x Abel. Muito boa sua participação e sei que pode servir como aprendizado para as mais novas mamães.
    Carinhoso abraço amiga.
    Bom domingo para uma feliz semana.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Maternidade: uma oportunidade de refazer-se

Fiquei um tanto confusa com o tema da blogagem desse mês e foi numa conversa agradável que tive com a Tê que as ideias e pensamentos foram se aclarando para que eu pudesse participar! Obrigada Tê!

Minha infância não teve muitas fotografias, afinal há quase 50 anos atrás, era difícil, caro, um verdadeiro luxo fotografar.
Mamãe tinha esse luxo e mesmo com todas as dificuldades da época, ela fez-me um bonito álbum.

Trago aqui para o blog, uma página que eu fiz a partir de fotos antigas e também as fotografias tiradas por meus pais.





Eu fui uma criança muito desejada, imensamente desejada, querida e acolhida.
José Augusto e Diva me adotaram logo que nasci.

Esses chinelos de mamãe eram ameaçadores quando eu não queria comer!


Como gostavam de me vestir bonita e sempre aos domingos passear!


Olhem bem para essa festa de aniversário: o bolo foi feito por mamãe e a decoração toda feita pelo meu pai. Tudo ali se movimentava: o carrossel, a roda gigante. E tudo ( motores ) foi feito a partir de sucatas. V…

A simplicidade do perdão na maternidade

"Anthony Ray Hinton passou trinta anos no corredor da morte por um crime que não cometeu. Ele estava trabalhando em uma fábrica trancada na hora do crime do qual foi acusado. Ao ser preso no estado do Alabama, foi informado pelos policiais que ia para a cadeia porque era negro. Ele passou trinta anos em uma cela minúscula, e só podia sair uma hora por dia. Durante o tempo que passou no corredor da morte, Hinton se tornou conselheiro e amigo não apenas dos outros prisioneiros, 54 dos quais foram mortos, mas do guardas também, muitos dos quais imploraram que o advogado de Hinton o tirasse de lá.
Quando uma decisão unânime da Suprema Corte ordenou sua soltura, ele finalmente estava livre para sair. 
“Uma pessoa não sabe o valor da liberdade até que ela lhe seja tirada”, disse-me ele. “As pessoas correm para fugir da chuva. Eu corro para a chuva. Como poderia uma coisa que vem do céu não ser preciosa? Tendo sido privado da chuva por tantos anos, sou grato por cada gota. Apenas por ter …

Vida corrida e maternidade.

E a proposta para este mês, do projeto Na Casa da Vizinha, é abordar o tema: Vida corrida! E a maternidade, como fica?


A Tê do blog Bolhinhas de Sabão para Maria e a Cris, do Prosa de Mãe organizam as blogagens!


Trouxe do meu álbum, duas fotografias tiradas com uma prima muito querida no chá de bebê de meu filho Bernardo. Cristiane e eu tínhamos quase o mesmo tempo de gestação. O filho dela, o Guilherme nasceu vinte dias antes do meu. Numa visita ao meu bebê, a mãe dela anunciou com um tom entre incrédulo e conformado: "Cristiane volta a trabalhar semana que vem. Já está fazendo a adaptação do Guilherme no berçário; disse que não aguenta, que não consegue ficar em casa de jeito nenhum. Dá para acreditar?"
Com dois meses de vida Guilherme foi para o berçário e minha prima voltou a trabalhar. Ela pode contar com os avós para um excelente apoio.
Eu, que não tinha familiares por perto, optei por deixar o trabalho: acordava às 4h da manhã para estar no trabalho às 7h e trabalhava todos…