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Postagens

Uchimizu

Sinto tanta, mas tanta vontade de escrever.Não, não é realmente “vontade de escrever” e sim vontade de receber! Receber você, minha visita, meu visitante. Esta troca, este interagir, esse acrescentar, compartir.
Então, neste anseio por recebê-los, vou transcrever um pequeno trecho de uma história de Shunmyo Masuno.
“Num dia quente de verão, você pode estar aguardando uma visita. Antes de recebê-la, esguiche água do portão para a rua. Esse ato serve para purificar a casa e fazer seus visitantes se sentirem bem-vindos. A pessoa que chega vê a mancha de água na calçada ou as gotas no canteiro de flores e pensa: “Ah, minha visita está sendo esperada. Quanta hospitalidade!”.
Joguei um balde de água com desinfetante aqui no quintal e calçadas, ou talvez tenha sido a água do enxágue da máquina com cheiro de amaciante. Com a vassoura de piaçava, fazendo aquele barulhinho ao roçar o chão molhado, espalhei a água cheirosa.
Pronto, pode chegar! Tua visita é esperada! Eu bem sei de minha neglicência em n…
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Florescer em meio às adversidades

Eu devia estar deixando a adolescência e iniciando a minha juventude quando descobri/aprendi que a palavra crise, no ideograma chinês, trazia consigo o significado de oportunidade. Toda crise então, carregava em si uma oportunidade, talvez ainda não revelada. Por um certo tempo, aquilo me serviu. Um emprego em que eu não era chamada, ou quando era demitida, lá estava a oportunidade de algo maior. O mesmo para algum "paquera" que não dava em nada, certamente haveria uma outra, uma melhor oportunidade me aguardando lá na frente. A palavra crise dos chineses não me serviu quando a crise era muito mais que uma crise. Um luto, uma traição... nestes casos era difícil enxergar uma oportunidade lá na frente. Perder um pai, uma mãe, um filho. Que oportunidade haveria nisso? Senti que era raso aquilo que por um tempo havia me servido. Cresci sendo ensinada a ser uma boa pessoa; rezar; bater três vezes na madeira para não atrair coisa ruim; pular ondas; vestir a cor certa para u…

Uma carta para meus filhos

Bernardo,




Você devia ter entre seis ou sete meses, eu te carregava grudadinho em meu corpo, no que se chamava de bebê-canguru. Era uma tarde de domingo, e isso eu me lembro bem porque havia uma feira no caminho que percorríamos até o parque.
Parei para comprar meia dúzia de bananas quando um mendigo se aproximou de nós. Eu já ia me esquivando pois, certamente o homem pediria dinheiro.
E essa foi a primeira frase dele - "Moça, eu não quero dinheiro não. Deixa só eu olhar o seu bebê".

Aquele homem sujo, grande, de feições abrutalhadas, barba enorme, cabelo desgrenhado, fétido, cheio de roupas sobrepostas, falou-nos com tal suavidade na voz... deixa só eu olhar o seu bebê.

Os olhos que compunham uma face sulcada de rugas e sofrimentos, tinham uma luz e ele foi trazendo uma delicadeza para seus gestos, as mãos, a cabeça que se inclinava para te olhar melhor, o corpo todo que pareceu apequenar-se para estar perto de você.

Foi então que ele me pediu - "Moça, posso colocar a mão na …

Escrito à mão

Na bagunça que é fazer uma mudança de casa, entre caixas, coisas para empacotar, desfazer, prioridades, lembro-me de ter encontrado uma revista de 2015. Eu a tinha guardado por algum motivo que, lá no final de novembro do ano passado, apressada com a mudança, eu realmente não me lembrava o que haveria naquela revista para ser guardada.  E tampouco haveria tempo para descobrir.
Já tem meio ano que nos mudamos e dia desses, desses de confinamento, distanciamento, quarentena, fui limpar e organizar gavetas e de uma delas, saltou a revista!
Dediquei-me a folhear a tal revista e em suas últimas páginas encontrei o motivo por tê-la guardado por tanto tempo!
A verdade é que eu já deveria ter escrito sobre o assunto e fui deixando...
Tudo começou quando uma jornalista, escritora, pessoa querida que se define com um "café coado", pediu ajuda para uma pesquisa que estava fazendo. Era pela internet mesmo e levava menos de cinco minutos. Perguntas e alternativas nas respostas.
Achei tão gosto…

Mães na quarentena

"Eu também desenhava a maneira como meu pai uma vez olhou para um pássaro caído de lado no meio-fio perto de nossa casa. Era o Shabbos [ Sabbath ], e estávamos voltando da sinagoga.
"Está morto, papai?" Eu tinha seis anos e não conseguia olhar para ele.
"Sim", eu o ouvi dizer de uma maneira triste e distante.
"Por que ele morreu?"
"Tudo o que vive deve morrer."
"Tudo?"
"Sim."
"Você também, Papai? E a Mamãe?"
"Sim."
"E eu?"
"Sim", disse ele. Então acrescentou... "Mas que possa ser somente depois de viver uma vida longa e boa, meu Asher."
Eu não conseguia entender. Forcei-me a olhar para o pássaro. Tudo vivo seria, um dia, tão imóvel como aquele pássaro?
"Por que?", perguntei.
"É assim que o Ribbono Shel Olom fez o seu mundo, Asher."
"Por quê?"
"Para que a vida pudesse ser preciosa, Asher. Algo que é seu para sempre nunca é precioso. *


                  …

Iogurte

Será que você já aprecia o Instagram da amiga Tê onde ela gentilmente nos mostra o aconchego do seu lar e suas caseirices, como ela mesma gosta de chamar?!
Ela Vê Poesia é um aconchego só! E foi inspirada numa das publicações ( todas as fotos são de encher os olhos ) de iogurte caseiro, que eu me inspirei para contar uma história.

Enquanto meu iogurte fica fazendo o seu trabalho ali quietinho, no sol, que pouco está esquentando por esses dias, eu revisitei uma gostosa memória!




Aprendi a gostar e fazer iogurte na minha juventude, quando um amigo, ao hospedar-se em casa, pediu para usar a cozinha e, da noite para o dia, apresentou-nós um pote de iogurte.

Eu que era do potinho do iogurte de morango, olhei meio ressabiada para aquele iogurte branco. Porém nosso amigo comia com tanto gosto aquilo que me arrisquei naquele novo paladar - branco, puro e azedo.
E não é que gostei?!
Produzi uns bons, outros que mesmo não dando tão certo, eram consumidos mesmo assim.
Grávida do Bernardo, tive desejos de…

A simplicidade do perdão na maternidade

"Anthony Ray Hinton passou trinta anos no corredor da morte por um crime que não cometeu. Ele estava trabalhando em uma fábrica trancada na hora do crime do qual foi acusado. Ao ser preso no estado do Alabama, foi informado pelos policiais que ia para a cadeia porque era negro. Ele passou trinta anos em uma cela minúscula, e só podia sair uma hora por dia. Durante o tempo que passou no corredor da morte, Hinton se tornou conselheiro e amigo não apenas dos outros prisioneiros, 54 dos quais foram mortos, mas do guardas também, muitos dos quais imploraram que o advogado de Hinton o tirasse de lá.
Quando uma decisão unânime da Suprema Corte ordenou sua soltura, ele finalmente estava livre para sair. 
“Uma pessoa não sabe o valor da liberdade até que ela lhe seja tirada”, disse-me ele. “As pessoas correm para fugir da chuva. Eu corro para a chuva. Como poderia uma coisa que vem do céu não ser preciosa? Tendo sido privado da chuva por tantos anos, sou grato por cada gota. Apenas por ter …