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A não-maternidade

Às vezes, para sair do meu lugar confortável com minhas leituras, poesia de Manoel de Barros, Rubem Alves, compaixão e empatia, felicidade genuína, compro algo diferente.
Foi assim com este livro.


De tanto ler recomendações nas newsletters que eu recebi, encomendei o livro e o li em uma semana ( algo bem raro! ).

Somente depois de finalizar a leitura, é que fui fuçar no instagram para saber o que estavam falando do livro.

O livro foi tido por muitos críticos como o melhor de 2018; a autora, a canadense Sheila Heti, veio à FLIP deste ano e curiosamente na minha rápida espiadela no instagram, vi que o livro faz enorme sucesso entre as garotas jovens, talvez na casa dos 25 anos para mais.

Apesar do título, o livro fala sobre a não-maternidade. É o questionamento da narradora sobre ter ou não filhos. Na verdade, ela parte mais do lugar sobre não tê-los, mas se questiona durante seus "últimos anos de período fértil", questionamentos perto dos quarenta anos de idade.

Para mim, nunca houve esse questionamento. A maternidade, desde muito cedo, era uma certeza em minha vida.

Então embarquei na leitura com os olhos voltados para quem essa certeza não povoa o coração, os planos, os sonhos.

Através de conversas com amigas que vivenciam a maternidade, ou a desejam, ela vai encontrando diversos pontos de vista, entre as mães. Do paraíso ao não tão paraíso assim. Passa também pela filosofia, cultura, antepassados e as ponderações de seu marido.

Eu ouvi muitas vezes e confesso que cheguei a repetir a frase "um casal sem filhos é o mesmo que um jardim sem flor", antes de ter filhos.

Conheci depois casais que fizeram a opção por não ter filhos e vi que realmente não lhes faltava nada.

A maternidade me ensina e me amadurece muito a cada dia, e uma das coisas que mais aprendi é que é preciso um comprometimento, um abraçar essa responsabilidade de cuidar e criar um filho com toda a sua alma, a sua força, o seu coração.

E tenho visto tantas maternidades descomprometidas, descuidadas. Um não querer velado para com aquele filho, que acho cada vez mais necessária essa reflexão se queremos mesmo nos comprometer com um pequeno ser que será cultivado a longo, longuíssimo prazo até que esteja pronto. Estamos falando de pelo menos duas décadas ou mais. E isso para não dizer "para sempre".

Vivemos tempos de tanto imediatismo, de tantas possibilidades que realmente é preciso querer muito esse projeto-filho que não tem nada de imediato.

Então é muito positivo e saudável que ganhe voz esse assunto entre as garotas jovens para que realmente reflitam se querem ou não se tornarem mães.

Durante muito tempo foi mesmo uma imposição social sem qualquer possibilidade de escolha para a mulher. Hoje, além de vivermos essa possibilidade ( que infelizmente não é, em nosso país, para a maioria ) de planejarmos nossos filhos ( claro, exceções sempre existirão ), temos uma revolução para os homens também, para a paternidade muito mais participativa do que foi no passado.

Para mim a maternidade é exuberante, maravilhosa, mas pode não ser para tantas outras mulheres.

Fico aqui pensando se lá no futuro um de meus filhos optar por não ter filhos.

Essa leitura abriu-me o olhar para essas escolhas tão diferentes das minhas.



Comentários

  1. Ana, é bom comprar , ler e nos deparar com outras realidades. A nossa é escancarada a maternidade. Porém para tantas outras por "ene" motivos, assim não o é! Há vários empecilhos e para algumas, por vezes ouvir sua voz interior que lhes mostra e fala não ser esse o desejo é melhor do que deixar nascer quem não é desejado, querido ou para passar trabalhos nesse mundo. Outras vezes, apenas por ter outras prioridades a maternidade é preterida. Cabe a todos nós, de todos os lados, SIM ou Não á maternidade, aos outros respeitar! Adorei mais uma vez te ler! bjs, linda semana,chica

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  2. Olá Ana Paula!

    Pois é, somos muitas suspeitas para dizer da vida rica e profunda que a maternidade nos oferece juntamente aos filhos. Hoje, a vida sem eles não teria significado.

    Todavia, que esta e outras leituras possam realmente alcançar as jovens para que elas tomem a decisão certa. Que façam a escolha que se harmonize com o que elas acreditam e não simplesmente sigam uma tendência... pelo sim ou pelo não.

    Um beijo e gratidão pelos carinhos lá no Diário, que nos alegra!

    Renata e Laura

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  3. Ana, uma leitura que faz a leitura do mundo atual.
    Não dá para generalizar sobre o assunto, porque gerar uma vida é algo sagrado, profundo, que merece respeito e dedicação, responsabilidade e muito amorrrrrr!!!
    Filho é uma experiência única, que por mais que a gente compartilhe sobre as dores e delícias, só sabemos quando passamos...
    O mundo tem mudado, mas eu sempre recorro aos valores do manual da vida, a Bíblia Sagrada, porém lá também tem sobre a liberdade de escolhas, então seguimos em frente espalhando o amor de Jesus, mostrando que a vida pode não ser fácil, mas é maravilhosa ao lado de Cristo...
    Os valores hoje estão nas viagens, estudos, liberdade, juventude, beleza, livre de responsabilidades, porém todas essas escolhas também terão consequências, talvez não imediatas, mas no futuro, por isso sigo consciente dos valores atuais mas não deixo de exercitar a fé e oração em Deus. O bom exemplo diário de amor em casa, e a fé e oração são as sementes que podemos plantar pelo caminho, na esperança de dias maravilhosos!
    Eu penso que Deus sabe de todas as coisas, não julgo as escolhas, e peço sempre que Deus guarde os caminhos e coração!
    Beijos doces,
    Ju

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